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Sete Estrelo

Um diário de navegação, neste mar de estrelas

Sete Estrelo

Um diário de navegação, neste mar de estrelas

Semana Santa

06.04.20 | MariaS

 


 


Serranias, Festival de Sabores e Tradições, em Soutosa - GazetaRural


 


Hoje regressei ao passado. Àqueles dias em que pelos largos blocos de granito escorriam lágrimas grossas que ensopavam não só pedra, como terra. 


Ao frio cortante cá fora e ao cheiro do ar, embebido em fumo da madeira nas lareiras onde o caldo se fazia, gostoso como nenhum outro, nos potes de três pernas. Visualizei a masseira do pão, com a toalha branca bordada em cima. Tão alva, como a neve, ali tão perto dos troncos e da caruma que de fazia brasa.


Museu Rural do Marão


 


Nesses dias em que chovia de manhã ao serão e as gotas bailavam nas janelas com vidros aos quadrados e cortinas de renda, costumava sentar-me nas conversadeiras, a olhar pr'o Marão, com os cumes cobertos de neve, sabendo que nos espigueiros, o milho e os feijões, jaziam húmidos e empilhados no chão.


 


Conversadeira da Capela de Padre Faria – Webmuseu Tainacan


 


Eram entardeceres que originavam noites de recolhimento e de muita história contada, verdadeira ou inventada, por entre malgas de vinho, broa e caldo. Uma ou outra sardinha frita. Cebola, rachada, com sal.E... se havia, trigo de quatro cantos. 


 


Adega O Matias – Bambora


 


Eram dias a fio, em que vir à rua trazia a necessidade de um oleado grosso por cima das costas e o chapéu enfiado na cabeça até às orelhas. Quem não andava a trabalhar, saía apenas para pensar os animais. Catar os ovos que poderia haver no galinheiro. Mugir as vacas, sempre de galochas e numa corrida.


Dias... em que nas latadas, as folhas de videira soluçavam tanto, como as pedras. Um pranto interminável descia sobre os telhados e as copas das árvores. As amoras ficavam mais escuras e luzidias. Os figos, no seu habitual verde, claro. 


 


À mesa da Páscoa, não pode faltar pão-de-ló – e o de Margaride é ...


Falava-se do que se faria no Domingo de Páscoa, em mais um ano que a casa se abriria para o Compasso.  E da casa mais abastada à mais modesta, melhorava-se o repasto. Borrego, pão-de-ló, folares, os ovos e as amêndoas.  Aprimoravam-se os arranjos das mesas. Exibiam-se as melhores louças, as mais finas toalhas de linho, bordadas. 


Nesse tempo... era tudo tão simples, belo e inesquecível, em dias como o de hoje. Dias... em que o céu derrama a sua dor, porque é tradição, na Semana Santa.